Greta sacudiu
distraidamente a caixinha de fósforos e sacou um palito.
- Já viu, alguma vez, daqueles fósforos em
cartelas de papel? – perguntou baixinho antes de riscar o palito.
- Já sim. –
Limpou a garganta. – Brinde de motel. Acredite, não é fácil de acender como os
filmes fazem parecer.
- Oh. – Greta
deu um suspiro e, sem querer, acabou por apagar a chama do fósforo.
- Quer dizer -,
adiantou-se PJ, com embaraço -, um amigo meu me mostrou.
Greta balançou
a cabeça e nada disse enquanto riscava um novo palito, prestando muita atenção
a este ato. PJ notou, ainda com acanhamento, que ela havia ficado ruborizada.
Era bonitinho de se ver, constatou. E totalmente novo. Enfatizava sua condição
humana.
Greta aproximou
o fósforo da camisa do lampião, um saquinho de gaze amarelada presa a um
anteparo de metal, e girou o parafuso. PJ observou com certo fascínio a chama
forte e cremosa lamber o saquinho de tecido sem consumi-lo, ruídos sibilantes
sendo produzidos enquanto não era regulada. Greta levara um tempo ajustando a
chama até que ficasse do jeito que queria, ora aumentando sua intensidade, ora
diminuindo ao ponto de quase se extinguir.
- Isso vai dar
certo? – perguntou à menina, relembrando suas dúvidas anteriores à conversinha
de caixas de fósforo.
Greta apenas o
fitou por um instante, depois de recuperar sua usual compostura apática. O
rubor fora embora, deixando para atrás apenas aquela expressão indecifrável.
Ela não respondeu sua pergunta e nem deu sinais de que sabia exatamente o que
estava fazendo.
PJ notou que
suas trancinhas loiras eram quase da mesma cor daquele pequeno sol por trás do
vidro do lampião. Várias delas cobriam o rosto de Greta, que se levantou e
carregou a luz até o outro lado daquele depósito de tranqueiras em que estavam.
Seguiu-a.
A
garota-estrela estava sentada no mesmo lugar em que a deixaram. Sua compleição
também era como a da chama a gás, brilhante e quente como ouro líquido. Em
determinado nível de observação, achava que ela se parecia com a menina que
agora se sentava no chão. E percebeu, com um pouco de culpa, que os jeans de
Greta estavam cobertos de poeira.
Os seus não
estavam em melhor estado, mas deixa pra lá.
Também se
sentou e tentou não pensar na estranheza de sua situação. A luz que a
garota-estrela emitia dava um ar mágico para o depósito de sua mãe, desde as
cadeiras sem uso às pilhas de revistas antigas. Era como partículas que pó que
dançavam eternamente no feixe dourado de sol que entra pela fresta da janela.
Tudo ao redor brilhava como a poeira na luz.
A garota
brilhante olhava para Greta como se reconhece sua existência no mesmo plano que
a sua própria. Não havia nem uma nesga de curiosidade quanto às ações da outra.
Apenas reconhecimento. Aprovação. Num passado muito remoto, poderiam ter feito
parte do mesmo todo.
Ele
sinceramente não queria descobrir como é que Greta sabia um jeito de falar com
a garota-estrela. Não queria mesmo. E nem porque ela havia acreditado nele
desde o primeiro instante, quando a procurou para contar que tinha uma estrela
cadente escondida em sua casa.
Percebeu que
ela o observava.
- Tudo bem? –
perguntou ela.
- Tudo. – Sua
oportunidade de pirar já havia passado. Agora era deixar pra lá. – Deu certo,
esse negócio com o lampião?
Greta assentiu.
- É só regular
a intensidade da luz, como ela faz. Eu entendo, e ela entende.
- Como é que
você faz isso? – não resistiu por mais tempo. – Entender o que ela quer dizer quando brilha com mais ou menos força.
A menina apenas
balançou a cabeça negativamente. Nem ela própria sabia?
- E agora? O
que quer perguntar a ela?
Com um ser tão
antigo quanto o próprio sentido da existência à sua frente, o que ele queria
saber?
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