quinta-feira, 30 de maio de 2013

Caixa de Fósforos



Greta sacudiu distraidamente a caixinha de fósforos e sacou um palito.

 - Já viu, alguma vez, daqueles fósforos em cartelas de papel? – perguntou baixinho antes de riscar o palito.

PJ observou a chama alaranjada sacudir e tremeluzir, antes de firmar-se num pequeno risco quente e luminoso.

- Já sim. – Limpou a garganta. – Brinde de motel. Acredite, não é fácil de acender como os filmes fazem parecer.

- Oh. – Greta deu um suspiro e, sem querer, acabou por apagar a chama do fósforo.

- Quer dizer -, adiantou-se PJ, com embaraço -, um amigo meu me mostrou.


Greta balançou a cabeça e nada disse enquanto riscava um novo palito, prestando muita atenção a este ato. PJ notou, ainda com acanhamento, que ela havia ficado ruborizada. Era bonitinho de se ver, constatou. E totalmente novo. Enfatizava sua condição humana.

Greta aproximou o fósforo da camisa do lampião, um saquinho de gaze amarelada presa a um anteparo de metal, e girou o parafuso. PJ observou com certo fascínio a chama forte e cremosa lamber o saquinho de tecido sem consumi-lo, ruídos sibilantes sendo produzidos enquanto não era regulada. Greta levara um tempo ajustando a chama até que ficasse do jeito que queria, ora aumentando sua intensidade, ora diminuindo ao ponto de quase se extinguir.

- Isso vai dar certo? – perguntou à menina, relembrando suas dúvidas anteriores à conversinha de caixas de fósforo.

Greta apenas o fitou por um instante, depois de recuperar sua usual compostura apática. O rubor fora embora, deixando para atrás apenas aquela expressão indecifrável. Ela não respondeu sua pergunta e nem deu sinais de que sabia exatamente o que estava fazendo.

PJ notou que suas trancinhas loiras eram quase da mesma cor daquele pequeno sol por trás do vidro do lampião. Várias delas cobriam o rosto de Greta, que se levantou e carregou a luz até o outro lado daquele depósito de tranqueiras em que estavam. Seguiu-a.

A garota-estrela estava sentada no mesmo lugar em que a deixaram. Sua compleição também era como a da chama a gás, brilhante e quente como ouro líquido. Em determinado nível de observação, achava que ela se parecia com a menina que agora se sentava no chão. E percebeu, com um pouco de culpa, que os jeans de Greta estavam cobertos de poeira.

Os seus não estavam em melhor estado, mas deixa pra lá.

Também se sentou e tentou não pensar na estranheza de sua situação. A luz que a garota-estrela emitia dava um ar mágico para o depósito de sua mãe, desde as cadeiras sem uso às pilhas de revistas antigas. Era como partículas que pó que dançavam eternamente no feixe dourado de sol que entra pela fresta da janela. Tudo ao redor brilhava como a poeira na luz.

A garota brilhante olhava para Greta como se reconhece sua existência no mesmo plano que a sua própria. Não havia nem uma nesga de curiosidade quanto às ações da outra. Apenas reconhecimento. Aprovação. Num passado muito remoto, poderiam ter feito parte do mesmo todo.

Ele sinceramente não queria descobrir como é que Greta sabia um jeito de falar com a garota-estrela. Não queria mesmo. E nem porque ela havia acreditado nele desde o primeiro instante, quando a procurou para contar que tinha uma estrela cadente escondida em sua casa.

Percebeu que ela o observava.

- Tudo bem? – perguntou ela.

- Tudo. – Sua oportunidade de pirar já havia passado. Agora era deixar pra lá. – Deu certo, esse negócio com o lampião?

Greta assentiu.

- É só regular a intensidade da luz, como ela faz. Eu entendo, e ela entende.

- Como é que você faz isso? – não resistiu por mais tempo. – Entender o que ela quer dizer quando brilha com mais ou menos força.

A menina apenas balançou a cabeça negativamente. Nem ela própria sabia?

- E agora? O que quer perguntar a ela?

Com um ser tão antigo quanto o próprio sentido da existência à sua frente, o que ele queria saber?

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