quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Autorretrato aos 20 anos



O nome foi escolhido com carinho, mas ninguém o escreve corretamente.
Não sai de casa.
Não atende ao telefone.
Vive sob a paranoia de que alguém com certeza pode ler seus pensamentos.
Passa todo o fim de semana de pijama.                                        
Gosta de filmes alternativos, onde atores famosos interpretam papeis pouco convencionais.
(“Brilho Eterno” é o melhor filme feito por Jim Carrey.)
Gosta de folk, rock, música clássica e música tradicional japonesa.
Possui enorme empatia pelas plantas que cuida. Desistiu dos animais de estimação.
O último livro que leu foi “Eu sou um gato”, de Natsume Soseki.
Tem alergia a gatos.
Gosta de chocolate, pois “não há mais metafísica no mundo senão chocolates”.
Gosta de confeitar, pois “as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria”.
Metade das receitas que testa dá errado.
Gostaria de ter a própria cafeteria. Contenta-se com uma cafeteira.
Tem vontade de ser escritora.
Fica descontente com dois terços dos textos que escreve.
Nunca terminou nada do que começou.
Aponta facilmente os próprios defeitos, mas faz vista grossa às qualidades.
(Tão problemático apontá-las, se é que existem.)
Levou, aproximadamente, dois anos para fumar três maços de Marlboro. Gostaria de experimentar Virginia Slims, pelo formato e a publicidade feminista nos anos 60.
É pessimista, pois o copo está sempre meio vazio.
“Não passa de um sapo no fundo de um poço”.
Espera morrer antes dos 27 anos.


 O “Auto-retrato aos 56 anos”, de Graciliano Ramos, foi usado como modelo.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Aí vem o Natal

Chegou o Natal. Ou, pelo menos, a magia colorida e brilhante já começa a se esgueirar para os aspectos do nosso dia-a-dia.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Diários de Margarida

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Valsa da Meia-Noite




Os passos atravessando a porta soavam leves e calculados e havia todo um não sei quê de galanteria nos gestos. Tomou nota de cada pedaço daquela mulher. Dos olhos grandes e aquosos, franjados de cílios castanhos, as mãos úmidas se secando no pano de prato, os tantos grampos no
cabelo, as flores bordadas no avental. Do leve bambear em suas pernas, enquanto ela se apoiava à pia da cozinha.

Como se a visse pela primeira vez, um fantasma pintado de cores frias em meio à multidão descolorada, do qual era impossível de desviar os olhos.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Caixa de Fósforos



Greta sacudiu distraidamente a caixinha de fósforos e sacou um palito.

 - Já viu, alguma vez, daqueles fósforos em cartelas de papel? – perguntou baixinho antes de riscar o palito.

PJ observou a chama alaranjada sacudir e tremeluzir, antes de firmar-se num pequeno risco quente e luminoso.

- Já sim. – Limpou a garganta. – Brinde de motel. Acredite, não é fácil de acender como os filmes fazem parecer.

- Oh. – Greta deu um suspiro e, sem querer, acabou por apagar a chama do fósforo.

- Quer dizer -, adiantou-se PJ, com embaraço -, um amigo meu me mostrou.

terça-feira, 16 de abril de 2013

O Sonho do Coelho



O que estaria por dentro da toca de um coelho? 

Aquilo era claramente um sonho, não tinha dúvida. Apenas em sonhos o céu possuiria aqueles tons de azul e lilás envelhecidos, com nuvens furta-cor, a grama seria tão macia para os pés descalços e o tronco de um salgueiro seria largo o suficiente para uma garotinha se esconder.

Ela não se escondia, para falar a verdade. Seu amigo sabia exatamente onde ela estava. Mas o ato de escapar de suas vistas e obrigá-lo a procurá-la fazia parte do jogo.

O rapaz, com uma mão cavalheirescamente às costas, consultou as horas em seu relógio de bolso. Ele perguntaria:

- O que estaria por dentro da toca de um coelho?

E a garotinha, com as mãos pequenas apoiadas ao tronco áspero, responderia:

- Uma grande família de coelhos. A mamãe é uma boa cozinheira, o papai gosta de ler o jornal, os irmãos implicam um com o outro e a vovó está tricotando luvas para o inverno.