quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Autorretrato aos 20 anos



O nome foi escolhido com carinho, mas ninguém o escreve corretamente.
Não sai de casa.
Não atende ao telefone.
Vive sob a paranoia de que alguém com certeza pode ler seus pensamentos.
Passa todo o fim de semana de pijama.                                        
Gosta de filmes alternativos, onde atores famosos interpretam papeis pouco convencionais.
(“Brilho Eterno” é o melhor filme feito por Jim Carrey.)
Gosta de folk, rock, música clássica e música tradicional japonesa.
Possui enorme empatia pelas plantas que cuida. Desistiu dos animais de estimação.
O último livro que leu foi “Eu sou um gato”, de Natsume Soseki.
Tem alergia a gatos.
Gosta de chocolate, pois “não há mais metafísica no mundo senão chocolates”.
Gosta de confeitar, pois “as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria”.
Metade das receitas que testa dá errado.
Gostaria de ter a própria cafeteria. Contenta-se com uma cafeteira.
Tem vontade de ser escritora.
Fica descontente com dois terços dos textos que escreve.
Nunca terminou nada do que começou.
Aponta facilmente os próprios defeitos, mas faz vista grossa às qualidades.
(Tão problemático apontá-las, se é que existem.)
Levou, aproximadamente, dois anos para fumar três maços de Marlboro. Gostaria de experimentar Virginia Slims, pelo formato e a publicidade feminista nos anos 60.
É pessimista, pois o copo está sempre meio vazio.
“Não passa de um sapo no fundo de um poço”.
Espera morrer antes dos 27 anos.


 O “Auto-retrato aos 56 anos”, de Graciliano Ramos, foi usado como modelo.