O que estaria por dentro da toca de um coelho?
Aquilo era claramente um sonho, não tinha dúvida. Apenas em sonhos o céu possuiria aqueles tons de azul e lilás envelhecidos, com nuvens furta-cor, a grama seria tão macia para os pés descalços e o tronco de um salgueiro seria largo o suficiente para uma garotinha se esconder.
Ela não se escondia, para falar a verdade. Seu amigo sabia exatamente onde ela estava. Mas o ato de escapar de suas vistas e obrigá-lo a procurá-la fazia parte do jogo.O rapaz, com uma mão cavalheirescamente às costas, consultou as horas em seu relógio de bolso. Ele perguntaria:
- O que estaria por dentro da toca de um coelho?
E a garotinha, com as mãos pequenas apoiadas ao tronco áspero, responderia:
- Uma grande família de coelhos. A mamãe é uma boa cozinheira, o papai gosta de ler o jornal, os irmãos implicam um com o outro e a vovó está tricotando luvas para o inverno.
O rapaz, com a grama estalando sob suas botas de montaria enquanto caminhava ao redor da árvore, diria:
- Como pode ter tanta certeza? Deve-se levar em consideração as dimensões da toca. Se o espaço for de 1 metro cúbico, não haverá mais do que um único coelho. Privado da socialização, ele estaria engendrando longas e profundas conversas com a metade de cenoura que guardou para o jantar.
A garotinha, espiando para conferir se o amigo a procurava - e sendo flagrada por seu olhar agudo -, sentiria uma enorme empatia pelo coelho.
- Que solitário ele seria. Mas, antes de tudo, ele deveria guardar provisões. O inverno será gelado e logo os esquilos terão estocado todas as nozes.
Seu pequeno e sábio discurso seria ignorado.
- Agora, se fosse coelhos espertos o suficiente, não seria uma simples toca, mas um labirinto com bifurcações, becos sem saída e salinhas onde guardam biscoitos.
Mas é
impossível saber o que está na toca de um coelho, mesmo que se saiba todas as
medidas e se faça os devidos cálculos matemáticos.
E o coelho?
Como se pode saber que se trata realmente de um coelho?
O rapaz daria as costas à árvore e fitaria longamente o mundo sem cor além da colina do salgueiro.
A garotinha aproveitaria para espiá-lo e, então, sussurraria:
- Entrando na toca, oras.
- Não!
O rapaz disse em tom de repreensão, se voltando para o tronco que a escondia por completo.
O rapaz daria as costas à árvore e fitaria longamente o mundo sem cor além da colina do salgueiro.
A garotinha aproveitaria para espiá-lo e, então, sussurraria:
- Entrando na toca, oras.
- Não!
O rapaz disse em tom de repreensão, se voltando para o tronco que a escondia por completo.
- Entrar dentro da toca seria uma violação. Seria como entrar dentro da própria alma do coelho. Encarar o que lhe traz felicidade e o que o entristece. É deixá-lo nu, vulnerável.
É mergulhar na própria alma e encarar cada recôndito de si mesmo. Descobrir o que te deixa feliz e o que te deixa melancólico, encarar a própria sorte e também aquilo que te envergonha.
Que me envergonha.
Subitamente cansado, a respiração ofegante por sua cólera, ele se sentaria na grama. E a garotinha enfim deixaria de se esconder. Tomada pela coragem desprendida que, para muitos, só resolve aparecer em sonhos, ela se aproximaria dele.
- Você ficaria triste se eu entrasse na toca?
Ele não responderia. Olharia para o mundo sem cor do outro lado, bagunçando os cabelos com ligeira exasperação. Quando sentado, os dois tinham exatamente a mesma altura. E quando próximos, sentiam a mesma familiaridade e os bons sentimentos quentes de conforto e refúgio.
Com a mesma coragem desprendida, pegou entre os dedos pequenos de criancinha uma mecha de cabelo rebelde do rapaz - e oh, tão macia quanto a orelha de um coelho - e repetiria sua pergunta:
- Você ficaria triste se eu entrasse na toca?
Mais calmo, ele a fitaria com olhos que lembravam geleia de morango ou de framboesa. Seus lábios se moveriam mas, como nos sonhos, as palavras mais signifativas seriam esquecidas ao acordar.
Subitamente cansado, a respiração ofegante por sua cólera, ele se sentaria na grama. E a garotinha enfim deixaria de se esconder. Tomada pela coragem desprendida que, para muitos, só resolve aparecer em sonhos, ela se aproximaria dele.
- Você ficaria triste se eu entrasse na toca?
Ele não responderia. Olharia para o mundo sem cor do outro lado, bagunçando os cabelos com ligeira exasperação. Quando sentado, os dois tinham exatamente a mesma altura. E quando próximos, sentiam a mesma familiaridade e os bons sentimentos quentes de conforto e refúgio.
Com a mesma coragem desprendida, pegou entre os dedos pequenos de criancinha uma mecha de cabelo rebelde do rapaz - e oh, tão macia quanto a orelha de um coelho - e repetiria sua pergunta:
- Você ficaria triste se eu entrasse na toca?
Mais calmo, ele a fitaria com olhos que lembravam geleia de morango ou de framboesa. Seus lábios se moveriam mas, como nos sonhos, as palavras mais signifativas seriam esquecidas ao acordar.
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