Os passos atravessando a porta soavam leves e calculados e havia todo um
não sei quê de galanteria nos gestos. Tomou nota de cada pedaço daquela mulher.
Dos olhos grandes e aquosos, franjados de cílios castanhos, as mãos úmidas se
secando no pano de prato, os tantos grampos no
Como se a visse pela primeira vez, um fantasma pintado
de cores frias em meio à multidão descolorada, do qual era impossível de
desviar os olhos.
Ela notou tudo isso com ligeira pasmaceira, um
tanto zonza pelo insólito da situação toda. Dava-lhe palpitações no peito, como
se o coração, de repente, decidisse antecipar todos os batimentos por vir. O
sangue correndo em frenesi zunia em seus ouvidos, espalhando um calor agradável
em seu pescoço até a ponta das orelhas. Porque ele a acariciava com os olhos
como se fosse devorá-la.
Parecia que ela mesma o via pela primeira vez, um
raio de sol refletido em olhos que pareciam nunca se aquecer.
Soltou vagarosamente a respiração – que nem
percebera estar – presa na garganta, lutando contra a moleza que se abateu em
suas pernas, quando ele enfim se aproximou e tomou nas suas as mãos dela.
Apertou. Sutil. Delicado. Como se quisesse sentir, saborear, da suave aspereza
daquelas mãos. Apoiou-as por trás de sua nuca. Desligou o fogão, sem dar um
segundo pensamento a o que quer que tivesse para o jantar. Segurou-a pela
cintura como se fossem repetir a valsa do casamento.
E eles valsaram. Valsaram, valsaram. No meio da
cozinha, pés calçados e descalços, tímidos e ritmados, no chão reluzente como
salão de bailes em
technicolor. Valsaram
como num filme musical. Um cult
europeu em preto e branco. Ela fechou os olhos e viu um tocador de acordeão à
beira do Sena, à meia-noite. Numa noite sem estrelas, porque todas elas se
escondiam atrás das nuvens para espiar os dois em seu romance.
As mais lindas cenas desenrolando-se por trás de
suas pálpebras, e ela sentiu que ele tombava para trás sua cabeça. Um
murmurinho e um suspiro de contentamento se formaram em seu coração quando ele
a beijou. Dava para sentir que os lábios dele se curvavam num sorriso. Dava
para sentir o cheiro delicioso de terra úmida nas pontas dos dedos que
desenhavam carícias mornas nas maçãs de seu rosto.
Deu para sentir a lâmina que lhe rasgava o peito,
e as lágrimas quentes que caíam sobre seu rosto. Os lábios que ainda
pressionavam brandamente os seus.
Não deu para ouvir os sussurros de despedida. Ou
o agradecimento pela última valsa.
Depressivo e doce, encantador e horripilante. Belo texto que saiu dos fiapos de inspiração que a música nos leva a ter. Muito bonito, dava uma fanfic do caralho. Mas é um texto do caralho, invejável a harmonia feita entre coisas tão discrepantes que rodaram numa valsinha que há muito não se dançava igual.
ResponderExcluir(PS: eu criei um novo blog, baby. Só para não perder a chance de avisar: http://boedesmor.blogspot.com.br/)
Sabe, a ideia era justamente dar continuidade àquelas duas estrofes da música. Fiz uma matéria, nesse semestre, em que tinha de escrever um texto por semana, de acordo com os temas propostos. Esse é um deles, assim como "Balcão de Sorrisos" - que foi um pouco modificado para virar aquela fanfic. Ah, mas é uma beça música, não? Apesar da letra um pouco feliz, a voz do Chico dá um tom sombrio muito lindo.
ExcluirMoça, o nome do novo blog é pura poesia.