Um feixe de luz entrava por uma fresta entre as cortinas e incidia no chão de madeira, partículas de poeira dançando no ar como uma valsa etérea. O sol nascia no mundo lá fora, enquanto o tempo parecia sequer passar dentro daquele quarto bagunçado.
A dama sentada ao chão poderia observar o bailar da poeira por horas a fio, poderia ficar naquela posição pouco confortável por semanas. Já não se lembrava mais o dia em que o relógio parou e a vida ficou suspensa naquele cômodo.
Seu vestido de noite estava amassado e a meia-calça que cobria suas pernas - ora juntas ao corpo, como sinal de solidão, ora estiradas no chão, em completo desprendimento - estava desfiada. As contas de seu colar estavam espalhadas pelo piso, junto dos grampos de seu outrora gracioso penteado. Seu batom estava borrado, ligeiramente espalhado em seu rosto e nas costas da mão que segurava seu queixo trêmulo.
Tudo nela inspirava um ar de decadência, crua e elegante, com algo de charme e ruína. Não havia nada de certo, mas tampouco de errado, naquela figura descomposta e descabelada, de respiração suspensa e olhar vazio.
Por que tudo naquela cena era de uma beleza pura e indecente.
*Imagem do videoclipe da música "Freguês da Meia-Noite", do Criolo.

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