Sempre me intrigou a facilidade com que algumas pessoas conseguem esboçar reações, sejam elas quais forem. E, na mesma proporção com que essas minhas reações são bem falhas, eu consigo ser bastante distraída.
Eu estava, como é de costume, com os olhos pregados para fora da janela do ônibus, obsevando o que quer que fosse interessante, e com os pensamentos realmente longe - indo tomar chá acolá, se a autora dessa expressão me permite o uso. Até que, num dado momento, o ônibus parou num ponto para acolher mais passageiros e, sem motivo aparente, fiquei observando um rapaz falando ao telefone. Apenas observando, sem ficar conjecturando seu nome, profissão ou o que poderia estar conversando, como se ele fizesse tão parte da paisagem quanto as árvores e os prédios. E, no entanto, ele devolveu o olhar. E, num prazo de um quarto de segundo, ele sorriu.
Foi então que me peguei mergulhada num turbilhão de questionamentos internos. Eu deveria sorrir de volta? Deveria desviar o olhar, embaraçada que fiquei? Ou o certo seria me sentir ofendida? Deveria permanecer naquela pose estática, possivelmente com a expressão mais estranha de todas? E se aquele sorriso, no mínimo zombeteiro, não fosse para mim e sim para quem estivesse no lado de lá daquela ligação?
Quando dei por mim, já havia passado por outras cinco ou seis paradas, tendo ocasionado de receber uma espiada estranha de tantas outras pessoas e perdido a vista do templo budista, que sempre faço questão de observar num segundo fulgaz, como se fosse um gancho que me trás de volta à realidade.
Mas ainda não encontrei uma resposta.

Ah, uma vez na minha vida (lá pela sétima série) eu tive esses pensamentos quanto fiquei "observando" de volta alguém. Só que a pessoa não tinha telefone algum e depois de um tempo perguntou para uma outra pessoa se eu era doente mental e a tal disse hesitante que sim (a última era uma colega que provavelmente não vai com minha cara até hoje, sendo que mal a conhecia a ponto de viver confundindo o nome dela, e espero que um boi coma o cu da maldita como retribuição ao elogio). Foi um episódio infeliz, principalmente para minha sensibilidade da época, e eu prefiro desviar o olhar agora - a menos que a pessoa dê impressão de ser simpática e tiver uns bons metros de distância, daí eu sorrio.
ResponderExcluirNessas horas, a capacidade de ficar invisível não seria absolutamente bem-vinda? Evitaria constrangimentos e o estranho desejo que um boi coma o cu alheio em retribuição - lutei para não criar uma imagem mental. Ah, dependendo da cara de simpatia da pessoa, sorrir de volta até fica fácil e natural, bem como devolver o "boa noite" que alguém deseja quando passa por você bem tarde numa rua deserta.
ResponderExcluirEm outras horas essa capacidade seria mais que bem-vinda! Entretanto ler mentes é útil para essas situações e muitíssimas outras. Você não só saberia o que fazer quando o cara do ônibus sorrir, mas no poker, seduzindo alguém, spoilers vindo da fonte e até na escolha do melhor candidato pro dia fatídico de hoje.
ExcluirSó para dizer que ainda tenho raiva da pessoa e notei que ela me excluiu no facebook, vadia (ou fui eu que fiz isso e não lembro? kkkkkkkkkkkk pois é ._.). No fim criou a imagem mental, haha?
Sim, dependendo da pessoa até sou eu que sorriu primeiro para estranhos e dá "boa noite" em rua deserta (mas esse último não devolveria nem se fosse um velhinho de 80 anos com dificuldade de andar). Tem vezes que até aceno pra gente na rua, quando de bom humor. Só que às duas da matina não daria nem pra cadeirante numa rua íngreme.