Imagine uma situação do dia, tão corriqueira e simplória que as dúvidas a respeito da probabilidade de sua ocorrência são sumariamente descartadas. Imagine um grupo de pessoas num ponto, esperando um ônibus. Não é nenhum ônibus para algum lugar em especial, talvez só estejam querendo finalmente chegar em casa e caçar algo doce na geladeira. É um ponto de ônibus próximo a uma faculdade, ou qualquer outro lugar que se concentre pessoas habituadas à leitura. Há cinco ou seis pessoas, mas apenas quatro são realmente importantes.
Uma dessas pessoas é um garoto, e ele está de pé. Para quem observa, ele tem um ar de desagradável arrogância, como se estivesse pronto a sacar uma piada trocista do bolso. Mas sua expressão sempre se suaviza quando mergulha na leitura de um livro interessante. E, neste momento, ele tem Deus, um delírio, de Robert Dawkins, nas mãos. Ele se concentra tanto em sua leitura que suas feições transbordam de uma sinceridade quase impossível.
Em contrapartida, há também um garoto sentado. Este usa óculos de armações pesadas e é dotado de uma ampla inteligência que, contraditoriamente, imprime a ele uma postura tacanha. Neste momento, ele está engolindo com todas as forças uma expressão chocada e tentando não transparecer que está se sentindo ofendido com o título do livro. Deus, um delírio? Francamente. A verdade é que ele lê regularmente a Bíblia – inclusive há uma versão de bolso do Novo Testamento guardado em sua mochila, singelamente encapada em azul – e catequiza crianças de sua igreja nos fins de semana.
A garota sentada ao seu lado não está alheia aos seus
sentimentos. Na verdade, aquilo até a diverte. Ela é observadora e, mesmo que
nunca tenham se falado, sabe interpretar as entrelinhas do vinco entre suas
sobrancelhas. E é por ser observadora que ela desistiu de ler seu livro; e O Caminho do Poço das Lágrimas, de André
Vianco, repousa fechado em seu colo. No momento, está mais interessada em
observar o jeito que as mãos da garota que está de pé seguram um livro de capa
que chamou muito sua atenção.
A garota que está de pé não poderia estar mais alheia quanto
ao que está ao seu redor. Está concentrada n’As Melhores Histórias da Mitologia Celta, de A. S. Franchini. Está
aproveitando ao máximo para ler enquanto seu ônibus não vem – a leitura em
movimento a deixa enjoada. Ela levanta a cabeça rapidinho e aperta os olhos
para conferir o itinerário do veículo que se aproxima, constatando que era este
que devia tomar. Ela fecha o livro e o segura contra o peito, ansiando para que
chegue logo em casa a tempo de pegar a última fatia daquele pudim.
*Ilustração de Fernando Vicente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário