
Fazia frio. De uma maneira abstrata, ela o sabia. Era como uma verdade incontestável.
Enquanto, sabidamente, fazia frio, ela também se sentia aconchegada. Olhou para cima e viu olhos cinzentos. Uma mão pálida e de dedos esqueléticos lhe tocou no nariz, antes de se afundar em seu cabelo.
“Tanna japonensis.” Uma voz profunda disse.
“O que?” Ela disse. Ou pensou que disse.
A mão pálida se afastou de seu cabelo para aproximar-se de seu rosto. Segurava um bicho estranho, meio verde, meio marrom, de longas asas transparentes.
“Tanna japonensis” repetiu a voz profunda. “Esta cigarra, cigarreando e fumando cigarros fortes, havia feito morada no seu cabelo.”
Ela sorriu. Para o dono dos olhos cinzentos – mas ela só via os olhos e o cabelo crespo – e para a cigarra, que retribuiu e soprou uma pequenina nuvem de fumaça, antes de voltar para seu cabelo.
Sentou-se e descobriu que ela era a cigarra. Ele também era a cigarra mas, ao contrário dela, ele bateu asas e voou.
(Acônito)
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