Um anjo caído. Era o que ele havia se tornado. Doce mentira, aquela de que anjos são perfeitos. Não, eles também erram. E isso é imperdoável.
Samuel caminhava pelas ruas. Caminhava. Puxa, como era estranha a sensação de estar usando pernas. Pernas, não penas. Não as penas de suas asas. Suas asas que foram arrancadas. Imaginava que era como um humano que perdia um membro importante do corpo.
Quer saber, dane-se. Dane-se. Experimentou e gostou da maneira como a frase foi pronunciada de seus lábios outrora angelicais, celestiais, iluminados. Sentou-se num banco de praça, ao lado de um jovem de cabelos longos. Ele fumava. Samuel ficou olhando o movimento das mãos muito brancas do jovem, o movimento de levar um cigarro até os lábios. O jovem olhou para Samuel e sorriu. Quer um cigarro, ele havia perguntado.
Samuel sentia dor. Em suas costas, onde outrora estiveram suas asas grandes e macias, ele carregava as feridas. Sangue das feridas onde estiveram suas asas grudava em sua camiseta preta. Não sangrava, mas ainda doía. O jovem sentado ao seu lado sabia de sua dor. Mas nada disse. Deu um de seus cigarros a Samuel, que agora levava aos lábios. E Samuel sorriu. Aquele cigarro tinha o mesmo cheiro de suas penas quando queimaram.
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